O FESTIVAL

A Arte
Urbana

Como parte da construção da nossa história, a arte pública tem grande importância na nossa memória coletiva de espaço e tempo. Seja através das manifestações com palavras de ordem contra a ditadura militar nos muros das cidades ou de painéis e esculturas que tinham como foco o desenvolver artístico e estético. Dos murais feitos a carvão pelo artista Chico da Silva nas ruas do Pirambu, às esculturas públicas de Sérvulo Esmeraldo presentes por toda cidade, podemos perceber as marcas de uma época. Com caráter efêmero ou não, muitos foram os artistas que levaram para as ruas seus trabalhos nas últimas décadas e marcaram gerações. Nos dias de hoje, ainda podemos encontrar obras públicas de Zenon Barreto, Leonilson, Ademir Martins, Estrigas, para citar alguns das gerações que já se foram, mas que continuam com suas obras presentes na cidade de Fortaleza. O tempo traz mudanças, outros artistas, novas técnicas e materiais surgem, novos termos e conceitos também.
 

O Festival CONCRETO

Chega a Arte Urbana nos anos 90 e em seguida o século XXI, cujas novas tecnologias de informação ajudam a propagar artistas e técnicas, um boom de ações tomam as ruas das grandes cidades, utilizando muros, postes, calçadas, semáforos, laterais de prédios, lixeiras e tudo que possa servir de suporte para instalações de arte pública, que por vezes questionam regras, imposições, limites e quase sempre propõem um outro olhar para a paisagem, através de imagens, inscrições, objetos e ações que possibilitem de alguma maneira alterar o modus operandi e a partir daí, encontrar outro sentido do que estamos vivenciando cotidianamente, mesmo que seja por um momento.

Muitas pessoas despertaram para esse tipo de linguagem e cada vez se torna mais comum ver obras e artistas ligados a grandes marcas e corporações, sejam públicas ou privadas. Todavia é bom lembrar que a arte urbana, apesar do reconhecimento das mídias e da população, de sua incorporação nas instituições oficiais de arte, do nível de profissionalização e valorização de alguns artistas, das formas que a sociedade se apropria, do seu uso como meio de higienizar espaços, comercializar produtos ou mesmo de tornar entretenimento; muitas das linguagens que a compõem, surgiram do abandono social e do caráter transgressor, sendo sua coluna vertebral e à qual sempre estará de alguma maneira inserida.

A simples ação de inscrever meu nome nas paredes da cidade serviu de porta por onde adentrei ao universo da arte urbana, me encontrei e após tempos de labuta participei de alguns festivais em diversas cidades de diferentes países, lugares onde pude fazer amigos, sentir e vivenciar inúmeras vezes a energia empolgante de transformação que esses eventos propiciam. Surgiu daí o desejo de fazer algo parecido na cidade onde vivo. A cidade de Fortaleza sofre com a grande desigualdade social e a violência, sendo, assim, um ambiente propício e necessitado de ações dessa natureza.


O nome
CONCRETO

Então, surgiu o embrião do Festival Concreto – Festival Internacional de Arte Urbana. O nome Concreto veio da necessidade de se fazer real, consistente. No dicionário da língua portuguesa, temos algumas palavras reforçando com definições de algo claro e definitivo. Diz-se do substantivo que designa ser acessível aos sentidos. Existe aqui a utopia de uma cidade possível, que tenha nas suas ruas lugar seguro de as crianças brincarem, das conversas nas calçadas, das paredes coloridas, das praças não privatizadas, das descobertas, das bicicletas, das árvores, dos encontros, dos amigos e dos amores.
 
Muitos corações e muitas mãos acreditam na proposta e fazem desse trabalho a argamassa como alicerce para realizar cada nova edição, propiciando um plantio que vem sendo cultivado com mais amor do que dor, regado com suor e lágrimas e que floresce em alegria.

Narcélio Grud, artista e idealizador do festival.