Felipe de Camilo

Sedimentação de fotografias, folhas, palavras e outros detritos, a exposição surge no intento de partilhar vivências e encontros de um corpo a envelhecer junto de sua urbe. ‘Perecível’ persegue uma poética de atravessamentos do tempo na superfície das plantas, das peles dos rostos, do concreto da cidade. Ruína, memória e imagem se cruzam por meio da ‘fitotipia’, retratos na superficie das folhas das árvores. Algumas das obras pontuam nossa atmosfera política atual, outras o álbum de família do autor.

‘Perecível’ traz retratos nos bairros históricos de Fortaleza revelados sobre a clorofila das folhas mais comuns aos jardins dos condomínios que a construção civil prolifera pela cidade. Se por um lado as folhas da arquitetura contemporânea constrangem as formas dos rostos, por outro a bricolagem de faces captura a efemeridade do ‘suporte-folha’ para nos indagar sobre as relações entre memória e duração – sobre a passagem do tempo na cidade e nos citadinos. Trata de um perambular pelo centro comercial, pela praia de Iracema, mas sobretudo pela Jacarecanga, bairro órfão das elites da metrópole – lá onde se percebe em seus casarões e idosos vestígios de uma cidade que envelhece. Aqui um corpo é vetor de ressignificação de memórias em ampla devoração. do sol, dos pés, da construção civil, das histórias, das políticas, das poesias. aqui a brevidade é soberana.

Com pesquisa iniciada em 2015, ‘Perecível’ foi amadurecido no projeto Imagens Não-Reveladas conduzido por Silas de Paula e Rian Fontenele entre 2016/2017. Ganha forma expográfica em 2018 na parceria com o Curador Júnior Pimenta. Também nesse ano, o projeto ganha formato de livro de retratos, haicais e outros escritos . Algumas de suas imagens reveladas na clorofila de folhas estiveram expostas na ‘Mostra de fotografia etnográfica da RAM’ – Reunião de Antropologia do Mercosul 2017 no Museu Juan Yaparí (Argentina) na Reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. ‘Perecível’ é o primeiro livro do artista na seara da fotografia e da literatura.

Se realiza menos como o minimalismo de Masao Yamamoto, que também carrega um espírito contemplativo, e mais como Eustáquio Neves em suas composições profusas de elementos e significados. O trabalho de revelação na clorofila de folhas de árvores, antotipia, também presente na obra do uruguaio Fede Ruiz Santesteban e do francês Benoit Fournier, se inspira principalmente na obra do vietnamita Binh Danh. Busca-se aqui salientar a fragilidade e as metamorfoses da memória diante da passagem do tempo na cidade. Entre as folhas encontramos retratos de familiares do autor que firma sua passagem pela casa dos trinta anos cruzando um pouco de sua biografia com a de Fortaleza.